"O grande trunfo da vitória é saber esperar por ela."

sábado, 6 de agosto de 2011

Após criticar evangélicos, Globo decide cortar cenas gays de “Insensato Coração”

Durante vários dias seguidos, a emissora global exibiu cenas de alguns personagens da novela se confrontando verbalmente sobre o tema “homossexualismo”

No capítulo desta segunda-feira, 18, o personagem gay “Chicão” (foto) vivido pelo ator Wendell Bendelack, disse ser discriminado pelos seus pais por influência de um pastor.

“A minha mãe só fala comigo para me dar sermão; o meu pai nunca passou de ‘bom dia’ e cascudo. Os dois vão na conversa do pastor da igreja deles e me tratam como se eu fosse o ‘fim do mundo’”.

Esta foi a frase dita pelo personagem gay “Chicão” no capítulo desta segunda-feira, 18, na novela “Insensato Coração”, quando ele pedia desculpas a sua patroa, Sueli, interpretada por Louise Cardoso, que na trama, descobre que tem um filho gay.

Durante vários dias seguidos, a emissora global exibiu cenas de alguns personagens da novela se confrontando verbalmente sobre o tema “homossexualismo”. Nas cenas, enquanto uns não aceitavam, outros diziam que a não aceitação seria “homofobia” e que já existia no Congresso uma lei que iria tornar a homofobia, crime, punível com prisão.

O exagero destas cenas e a perda de 8% do ibope este ano, talvez tenham alguma relação, e possam ter sido decisivos para que a emissora resolvesse “jogar um balde de gelo nos gays” da novela, como afirma a colunista da Folha de São Paulo, Keila Jimenez.

A Folha de São Paulo apurou que os autores da novela, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, foram chamados na semana passada para uma conversa com o diretor-geral de entretenimento da emissora, Manoel Martins. Na pauta: a determinação da Globo para que a história dos homossexuais Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo) fosse completamente esfriada no folhetim.

As novas cenas de Hugo e Eduardo, assim como as cenas de conversa sobre o assunto entre Eduardo e sua mãe, vivida por Louise Cardoso, serão inutilizadas.
Aos autores e atores a Globo pediu silêncio. Nada de instigar o beijo gay nem a ira de entidades que possam encarar a iniciativa como preconceito. A ordem é esfriar o assunto sem polemizar.

Além do corte das cenas, os autores foram instruídos a não carregarem bandeira política, a pararem de fazer apologia pela criação de uma lei que puna a homofobia. Já as cenas engraçadas do personagem Roni (Leonardo Miggiorin) estão liberadas.

Procurada, a Globo, via assessoria, diz que a televisão é um veículo de massa que precisa contemplar todos os seus públicos e faz parte do papel da direção zelar para que isso aconteça.

Brasil é campeão mundial de crimes contra homossexuais

Brasil é campeão mundial de crimes contra homossexuais

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JANAINA FIDALGO
da Folha Online

O Brasil tem um triste recorde: é o campeão mundial de crimes contra homossexuais. A informação é do Grupo Gay da Bahia, que coleta informações, pois não há medições precisas sobre morte de homossexuais no mundo, apenas estudos.

Em 2000, 130 gays foram assassinados no país. As estatísticas mostram que nos Estados Unidos, que têm cerca de 250 milhões de habitantes -80 milhões a mais do que o Brasil-, cem pessoas são mortas por este motivo.

"A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil", disse Luiz Mott, 55, presidente do Grupo Gay da Bahia e professor de antropologia da Universidade Federal da Bahia.

Há 20 anos, o grupo coleta estatísticas sobre os crimes contra homossexuais. Os dados fazem parte de um clipping (coletânea de notícias publicadas na mídia) e de informações passadas por grupos gays de alguns Estados do Brasil e por entidades de direitos humanos do país.

"Isso compete a nós porque não existem no Brasil estatísticas oficiais sobre crimes de ódio. Não há vontade política para contabilizar crimes raciais, contra a mulher e contra os homossexuais", disse Mott.

O chamado crime de ódio -intolerância contra minorias raciais, sexuais, físicas, religiosas ou políticas- caracteriza-se por insulto, destruição do patrimônio, agressão física e assassinato, praticados com requintes de crueldade, como tortura, uso de múltiplos instrumentos e muitos golpes.

"Trabalhamos em causas de discriminação sexual. Registramos a queixa e encaminhamos para que seja julgada", disse Cleyton Chaves, advogado do Grupo Gay da Bahia, que recebe por volta de sete queixas por mês.

Com tanto preconceito e ódio rondando as minorias, Mott acredita na educação sexual, em punições mais rigorosas e na conscientização como forma de mudar esse quadro e tirar o Brasil da primeira posição no ranking de crimes contra os homossexuais.

"A longo alcance, a educação sexual pode ensinar as pessoas a respeitar minorias sexuais, e a justiça deveria ser mais severa na apuração e punição. A conscientização da comunidade homossexual também é importante. As situações de risco devem ser evitadas e as agressões, denunciadas", afirmou Chaves.

O atendimento a homossexuais nas delegacias da mulher seria uma alternativa para aumentar o número de denúncias contra a agressão. Em Sergipe, o atendimento a este público é obrigatório. "Não temos delegacia especial. Queríamos que a delegacia da mulher abrisse o atendimento para todos os discriminados", disse o advogado.

Eventos como a "Parada do Orgulho Gay", que ocorreu no último final de semana em São Paulo, são, na opinião de Mott, uma oportunidade para que a maioria das pessoas se familiarize com a diversidade sexual, aprendendo a desfazer preconceitos por meio da convivência.

"Uma pequena parcela torna-se mais intolerante porque algumas cenas incomodam. Mas as paradas funcionam como uma espécie de baile de debutantes para as pessoas que, pela primeira vez, têm orgulho de estar na multidão", afirmou.